The Last of Us, de videojogo a Live Action
Ambientado num mundo onde a sobrevivência implica uma luta constante e a humanidade enfrenta os seus próprios limites, The Last of Us mostra-nos como o amor e o sacrifício podem dar sentido até ao maior dos horrores.
O que começou como um videojogo revolucionário para a PlayStation em 2013, desenvolvido pela Naughty Dog, tornou-se uma das histórias mais impactantes e aclamadas da atualidade. Com a sua bem-sucedida adaptação a série em 2023, não só conquistou milhões de jogadores, como também conseguiu emocionar novos espetadores.
Este fenómeno marcou um antes e um depois na forma como os videojogos e a televisão podem contar histórias. A combinação de personagens inesquecíveis, um mundo pós-apocalíptico cativante e uma abordagem humana e emotiva tornou esta série numa obra fascinante.
O caminho particular da adaptação
A história de Joel e Ellie estava prevista para cinema antes de se tornar uma série de televisão, no entanto, como explicou Neil Druckmann, diretor criativo do videojogo e um dos responsáveis pela adaptação, o formato cinematográfico não faria justiça à complexidade e profundidade da história. O filme perderia o que torna o jogo especial: a sua humanidade, narrativa pausada e momentos críticos entre personagens. Assim, o projeto cinematográfico foi descartado e a HBO assumiu as rédeas para o transformar numa série.
Estreada a 16 de janeiro de 2023, com 9 episódios, cativou a audiência desde o início, alcançando a segunda melhor estreia da HBO em 13 anos, apenas atrás de House of the Dragon.

Desde o prólogo, ambientado em 1968, onde dois cientistas discutem as ameaças que os fungos poderiam representar se o aquecimento global lhes permitisse adaptar-se aos humanos, é estabelecido um tom inquietante e plausível, que ressoa profundamente com o contexto atual. Chegando ao início do caos em 2003, estabelecendo e mantendo um tom sombrio e realista.
Desenvolvendo a trama num futuro onde a humanidade foi dizimada por uma pandemia causada pelo fungo Cordyceps, (inspirado num parasita real que afeta insetos), transformando-os em criaturas violentas e canibais. Um mundo em ruínas, onde a civilização moderna colapsou e os sobreviventes se agrupam em zonas de quarentena militarizadas, assentamentos independentes ou grupos nómadas.
A série capta na perfeição esse ambiente, desde as paisagens desoladas e cidades em ruínas até aos infetados, cuja presença é tanto física como simbólica.
Por outro lado, no foco central da história, encontra-se a relação entre Joel e Ellie, duas personagens com um vínculo quase de pai e filha, que encarnam a luta pela sobrevivência e a necessidade de conexão humana num mundo onde a esperança parece ter desaparecido. A sua evolução ao longo da série e do videojogo levanta questões sobre até onde estamos dispostos a ir por aqueles que amamos.

O resultado da primeira temporada foi espetacular, com um orçamento recorde, não só respeitou a essência do primeiro videojogo, cuja história cobriu, replicando inclusive diálogos e cenas icónicas, como expandiu o seu mundo de forma significativa enquanto introduzia novas perspetivas e detalhes que enriqueceram a trama. Podemos dizer que momentos como o início do surto no Texas, o caos na zona de quarentena e a viagem através de um Estados Unidos em ruínas foram levados para a tela com uma fidelidade impressionante.
Um dos elementos mais destacados segundo os fãs, foi a sua capacidade para aprofundar em personagens secundárias, como Bill e Frank, cuja história de amor foi amplamente elogiada pela crítica e pelo público. Além disso, a série explorou temas como o sacrifício, a resiliência e a moralidade num mundo onde as linhas entre o bem e o mal são cada vez mais ténues.
O seu sucesso foi retumbante, ganhando oito prémios Emmy e tornando-se uma das produções mais destacadas do ano. Além disso, Keivonn Woodard, que interpretou "Sam", foi nomeado para o Emmy de Melhor Ator Convidado, tornando-se o ator surdo mais jovem a receber este reconhecimento.
Atualmente, a segunda temporada, baseada no videojogo The Last of Us Part II, de 7 capítulos, estreará em abril deste ano e promete levar a história a um território ainda mais sombrio e emocional, mas não menos esperado pelos seguidores que anseiam descobrir os factos que estão por acontecer, ou desejam explorar esta nova forma como serão relatados, no caso de já se terem imerso nesta história através do jogo.
Ambientada cinco anos após a primeira temporada, Ellie assumirá um papel central, explorando os traumas e conflitos morais que definiram o segundo videojogo, enquanto Joel lida com as consequências das suas decisões passadas, e o mundo continua a questionar quem são os verdadeiros monstros: os infetados ou os próprios humanos.
Craig Mazin, co-criador da série, insinuou que poderia estender-se a uma terceira ou mesmo quarta temporada, dado o nível de detalhe e as rotas narrativas que desejam explorar, o que simplesmente aumenta ainda mais as expectativas dos fãs.

The Last of Us não é apenas um videojogo nem uma série; é um fenómeno cultural que marcou uma geração inteira, desde a sua narrativa profundamente humana até à sua impecável produção, a franquia convida-nos a refletir sobre os limites da nossa moralidade e a importância das conexões humanas nos momentos mais sombrios.
Seja um fã de videojogos ou alguém que se apaixonou pela história através da série, The Last of Us continua a demonstrar que, mesmo num mundo partido, há sempre esperança, mesmo nos momentos mais sombrios, o amor e a conexão humana podem ser a nossa maior força... e também a nossa maior fraqueza. Porque, no final, o que nos torna humanos não é apenas a nossa capacidade de sobreviver, mas a nossa habilidade para cuidar de quem amamos.
(Podem encontrar artigos desta série e jogo e muitos mais, aqui)