Ilustraciòn de Manuel Blanco, con un fondo de ciudad y un hombre lobo aullando a la luna llena, con el título del artículo.
Tiempo de lectura: 3 min Publicado el: 09 Jun 2026
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    A lenda do lobisomem da Galiza

    Nas montanhas e nos caminhos rurais da Galiza circulou durante décadas uma história capaz de semear o medo entre viajantes e aldeões. Várias pessoas desapareciam sem deixar rasto e os rumores apontavam para um homem que parecia esconder um segredo obscuro.

    Alguns consideravam-no um assassino; outros estavam convencidos de que se transformava em lobo durante as noites de lua cheia.

     

    Aquele homem existiu realmente. O seu nome era Manuel Blanco Romasanta e o seu caso tornou-se um dos episódios criminais mais inquietantes da história de Espanha, onde a realidade e a lenda acabaram por se misturar de forma quase inseparável.

    Ilustração de Manuel Blanco

    Quem era Manuel Blanco Romasanta?

    Manuel Blanco Romasanta nasceu em 1809 na província de Ourense. Viveu numa Galiza rural marcada pela pobreza, pelas superstições e pelas longas rotas através de florestas e montanhas.

    Ao longo da sua vida desempenhou vários ofícios, entre eles o de vendedor ambulante e guia de caminhos. O seu trabalho permitia-lhe viajar constantemente e ganhar a confiança de muitas pessoas. Precisamente essa facilidade para se deslocar e relacionar com outros acabaria por desempenhar um papel fundamental nos crimes que o tornaram famoso.

     

    Os misteriosos desaparecimentos que semearam o medo

    Entre 1846 e 1852 várias pessoas desapareceram depois de empreender viagens acompanhadas por Romasanta. Muitas eram mulheres e crianças que procuravam melhores oportunidades de trabalho ou precisavam de ajuda para se deslocar para outras localidades.

     

    Com o passar do tempo, familiares e vizinhos começaram a suspeitar. As pessoas partiam, mas nunca regressavam. Também não chegavam notícias delas. Os rumores cresceram até que as investigações apontaram Romasanta como principal suspeito.

    Foi detido em 1852 e acusado de múltiplos assassinatos. Embora o número exato nunca tenha podido ser estabelecido com total certeza, atribuíram-lhe entre treze e dezassete vítimas, tornando-o num dos primeiros assassinos em série documentados da história espanhola.

     

    Por que é que as pessoas acreditavam que ele era um lobisomem?

    A fama de lobisomem não surgiu apenas da imaginação popular. Durante o processo judicial, o próprio Romasanta afirmou que sofria de uma maldição que o transformava em lobo e o obrigava a matar.

    Segundo o seu relato, as transformações ocorriam contra a sua vontade e durante esse estado perdia o controlo das suas ações.

    Estas declarações causaram um enorme impacto numa época em que muitas pessoas ainda acreditavam em criaturas sobrenaturais e lendas transmitidas de geração em geração.

     

    Numa Galiza onde as florestas, as superstições e os relatos de lobos faziam parte da vida quotidiana, a história encontrou terreno fértil para se converter em lenda.

    Estatua de Hombre Lobo en España

    O julgamento que chocou a Espanha

    O julgamento de Manuel Blanco Romasanta despertou um interesse extraordinário dentro e fora do país. A possibilidade de um acusado afirmar transformar-se fisicamente num animal era tão impactante como os próprios crimes.

    Durante o processo, Romasanta confessou vários assassinatos, mas insistiu que não agia por decisão própria. No entanto, os médicos que participaram na investigação rejeitaram a explicação sobrenatural e concluíram que ele estava plenamente consciente dos seus atos.

    Finalmente foi declarado culpado e condenado à morte. A sentença, no entanto, foi posteriormente comutada para prisão perpétua, uma decisão que contribuiu para aumentar ainda mais a fama do caso.

     

    Era realmente um licantropo ou um assassino?

    De uma perspetiva histórica, não existe nenhuma evidência de que Romasanta tenha sofrido transformações físicas. Os especialistas consideram que a história da licantropia fez parte da sua estratégia de defesa ou de uma interpretação influenciada pelas crenças da época.

     

    Hoje em dia conhece-se a existência da chamada licantropia clínica, uma rara perturbação psiquiátrica em que uma pessoa acredita transformar-se num animal. No entanto, Romasanta nunca recebeu um diagnóstico deste tipo e não existem provas que permitam afirmá-lo com certeza, embora também não exista uma forma de o descartar totalmente, uma vez que esta perturbação não era conhecida naquela época e, consequentemente, não havia meios para o seu diagnóstico.

    Apesar disso, a maioria dos historiadores considera-o um assassino real cuja figura ficou envolta em elementos lendários, afinal, independentemente das circunstâncias que o puderam levar a cometer tais atos, as suas vítimas foram reais.

     

    Porque é que a sua história ainda gera temor hoje?

    Mais de século e meio depois, o caso de Manuel Blanco Romasanta continua a fascinar porque reúne todos os ingredientes de uma grande história de terror histórico: desaparecimentos misteriosos, florestas solitárias, superstições populares, assassinatos reais e um acusado que afirmou transformar-se em lobo.

     

    O mais inquietante é que, por trás da lenda, existiram vítimas reais e um processo judicial documentado.

    Essa combinação entre factos comprovados e crenças sobrenaturais é o que tem mantido vivo o mito do lobisomem da Galiza até aos nossos dias.